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Você está em contato com a experiência de transposição da técnica do folhetim para a internet. Trata-se de uma experiência, ao que se sabe, inovadora, e, ao mesmo tempo, de resgate de uma técnica muito antiga, de grande repercussão desde sua origem.
O folhetim surgiu na França, no século XIX, em um momento em que os jornais viviam uma crise sem precedentes, em função de uma série de dificuldades da sociedade francesa. No início do século XIX, estava instalada no país, uma crise econômica e social, que criou cinturões de miséria e de analfabetismo. Em função disso, havia também, claro, uma crise no consumo dos jornais, que lutavam para sobreviver. O mesmo acontecia com os livros, particularmente os de ficção. Grandes autores da época, como Balzac e Alexandre Dumas, sofriam as conseqüências de uma sociedade em que a leitura era relegada ao segundo ou terceiro plano, por força das condições que se impunham.
Para facilitar a compreensão, apresento uma definição produzida por Marlise Meyer, em texto clássico sobre o folhetim:
O termo designa uma forma de narrativa inventada pelo Romantismo Francês, paralelamente à criação do romance romântico, o “grande romance realista” como querem alguns. Uma forma específica de narrar, articulada com uma forma específica de publicar, num veículo específico: o jornal. Em outras palavras, uma ficção narrativa em prosa, publicada aos pedaços, no jornal cotidiano. (MEYER, 1982, p.8)
Assim, o que faço aqui é adaptar a técnica, que representa a origem remota da telenovela, uma técnica que ainda hoje faz muito sucesso, na televisão brasileira e na de vários países do mundo.
No caso da França, a novela em série decorre da utilização prévia do espaço dos rodapés dos jornais, com artigos de interesse geral, descrição de viagens, estórias de escândalos. O termo folhetim deriva do francês feuilleton. Literalmente, significa folheto e designa o espaço “encerrado nos limites tipográficos do rodapé” (MEYER, 1982). Depois de 1830, este espaço passou a ser mais lido do que o jornal todo, o que resultou na idéia de que fosse aproveitado com textos de ficção que tivessem o mesmo tipo de conteúdo.
É interessante, neste sentido, o que ensina Hauser sobre as características do folhetim, que também utilizo no romance de Gianlucca e Francesca. Segundo este autor, o folhetim dirige-se a um público multiforme, rege-se pelos mesmos princípios formais e critérios estéticos que o teatro popular. O autor aponta, ainda, uma predileção pelo exagero e pela audácia, pela crueza e excentricidade. Os assuntos são os mais populares: seduções, adultérios, atos de violência e crueldade. Os personagens e o enredo são estereotipados e construídos de acordo com um padrão preestabelecido.
Outra característica salienta por Hauser é a interrupção da história no fim de cada número da série, criando um clímax que desperte a curiosidade pelo número seguinte. Destaque para o fato de que as partes do folhetim eram publicadas separadamente, sem a possibilidade de alteração do que já havia sido publicado, criando, segundo o autor, um estilo improvisador de narrativa. Os acontecimentos são apresentados numa corrente infindável, e o retratar dos personagens, às vezes, cria grandes contradições. Há a possibilidade de desvios do enredo e variações de finalidade dos personagens.
Estas características destacadas por Hauser estão comentadas em um livro, que publiquei sob o título Comunicação: Trama de Desejos e Espelhos, em que apresento uma pesquisa realizada na USP, sobre a relação do metalúrgico de Porto Alegre, com a telenovela e com a comunicação do sindicato.
Abaixo, você encontra as referências dos textos citados, nesta breve apresentação do folhetim. No meu livro, há outras referências que podem interessar, sobre o folhetim e sobre a telenovela, como gênero de ficção. Além disso, você pode me contatar, se quiser alguma informação adicional.
BAPTISTA, Maria Luiza Cardinale. Comunicação. Trama de Desejos e Espelhos. Canoas: ULBRA, 1996.
HAUSER, Arnold. A geração de 1830. In: História Social da Literatura e da Arte. São Paulo: Mestre Jou, 1972.
MEYER, Marlise. Folhetim para almanaque ou rocambole, a ilíada de realejo. In Almanaque. Modos Menores de Ficção. n. 14, São Paulo, Brasiliense, 1982. |
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